Sociedade

Um pequeno recado sobre quem vive na rua

Por Nadine dos Santos Mussá

Sabias que tens mais em comum com um sem-abrigo do que com um milionário?
As pessoas que vês na rua a pedir uns trocos ou a dormir debaixo de uma varanda um dia foram como tu: com uma boa rede de suporte, família que apoia, um trabalho, uma vida comum.
Algo aconteceu. Talvez te deva interessar saber que não são só as drogas que atiram as pessoas para a rua, como o preconceito diz. Até porque há gente com dinheiro que consome drogas todos os fins-de-semana e os amigos acham um bom método de diversão. É mais okay snifar algo antes de ir para uma festa, mas quando é o rapaz despenteado que te pede um euro na rua já é inferior a ti?
Ninguém está livre de acabar nas ruas, as hipóteses são muito mais elevadas às de ganhar o euromilhões. Tu que estás a ler isto num computador ou outro recurso tecnológico, alguma vez imaginaste que podes perder tudo da noite para o dia?
A vida é complicada e existem diversas razões para uma pessoa acabar na rua, e não são sempre as drogas. Ficar sem trabalho pode ser o início dessa viagem. Ser despejado. Ser burlado e ficar sem nada. Ser abandonado pela família. Não ter uma única pessoa que os ajude a voltar a uma vida comum. Ter uma grave doença mental que os impossibilite de viver uma vida como a tua – o que se agrava porque perdem o acesso à medicação necessária – e ter um qualquer surto que acabe com a estabilidade de uma casa, bom apoio, um trabalho.
Para muitos é fácil passar na rua e ignorar quem te pede um euro. Desculpas-te a ti mesmo porque te convences que é para drogas. Não estarias tu também a recorrer a drogas se a tua vida se resumisse a dormir ao relento em noites de temperaturas negativas, não tivesses acesso a comida quente como agora tens, não teres um espaço que possas chamar teu? Se quando estás frustrado bebes um copo, imagina se tudo na tua vida desmoronasse de repente – e não nos esqueçamos que o vício em álcool ou drogas é uma doença – e tropeçasses no grande jogo que é a vida e ficasses sem família, sem casa, sem trabalho, sem abrigo. Se calhar também tentarias fugir temporariamente dentro da tua cabeça, é mais fácil usar drogas do que estar sóbrio e lidar com uma vida sem sentido. Não consegues comida porque não tens dinheiro, muito menos casa, e por consequência trabalho.
Sabias que a maioria das pessoas na rua são pessoas com doenças mentais graves?
Impossibilitadas de viver uma vida como a tua, perderam o apoio e tudo o que tiveram na vida. Podes ser tu, o teu vizinho, um amigo teu, um familiar teu, a qualquer momento. Perder tudo está ao virar da esquina de qualquer um de nós. Pensa então no quanto despersonalizas uma pessoa que te pede um euro na rua e continuas o teu caminho a caminho do copo com os teus amigos. Talvez essa pessoa tenha uma garrafa ou seringa escondida algures, talvez não, mas não cabe a ti julgar a pessoa e vê-la como inferior a ti. Mesmo que censures o uso de drogas com toda a tua alma, é necessário que entendas que é uma doença. Essa pessoa que te pediu algo, mesmo que seja para droga, precisa de ajuda, não que a ignores. Existem muitos mitos urbanos sobre entregarmos comida a um sem-abrigo e ele deita-la fora.
Toda a gente ou passou por isso ou conhece alguém que conta essa história. Usam-na para descredibilizar quem realmente precisa de ajuda, e por uma pessoa na rua fazer isso, pagam todas.
Será que é mais aceitável roubar do que pedir?
Já fui assediada por pessoas alteradas na rua. Já me pediram dinheiro, dei comida e recusaram. Talvez já tenha pensado como tu: são consequências das escolhas de vida. Na verdade, nem sempre são. Pára para pensar naquela pessoa, ser humano como tu. Não é por viver na rua que merece menos respeito, atenção, simpatia, ajuda, comida. Há uns tempos aprendi que podemos criar mini-packs para ajudar essas pessoas. Mochilas baratas cheias de comida e produtos de higiene básica e entregar a alguém que esteja numa cama de cartão. Além disto, claro, podes contribuir através de associações de apoio directo, da maneira que te aprouver. A reabilitação e reintegração na sociedade, para muitos, é quase impossível muitas vezes devido à rotina nas ruas. Anda a nível mundial uma tendência de arquitectura desenhada para escorraçar pessoas sem-abrigo. Espinhos em arcadas que protegem da chuva, bancos de jardim com divisórias. Como se aqueles humanos fossem lixo. Só os activistas se manifestam mesmo contra e fizeram algo, os demais ignoram tanto quanto ignoram a senhora sem perna no chão do Rossio.
Poderias argumentar que viste um sem-abrigo com um cão, ou três. Já paraste para pensar que são o maior companheirismo que ele pode ter? Há pessoas sem-abrigo que preferem alimentar o seu cão primeiro. Não há empatia maior que essa. Algumas pessoas preferem ficar sem abrigo para terem os seus animais. Os abrigos não os aceitam. Quem somos nós para censurar quem tem o seu melhor amigo na forma de um animal?
Pensa, ainda, nas mulheres que vivem na rua. Passiveis a violações e sem se conseguirem defender como as que passam na rua para ir para casa. Terem menstruação e não poderem tomar banho ou usar pensos higiénicos. Prostituírem-se contra a sua vontade para conseguirem alimentar-se.
Tu tens mais em comum com um sem-abrigo do que com um milionário. Lembra-te, por favor, que são pessoas como tu, e se decidires ser egocêntrico, lembra-te que o azar acontece, e um dia aquela pessoa desalinhada podes ser tu.

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